Kool Metal Fest 10/11/19 Carioca Club

By Guz69 - novembro 18, 2019


Tenho acompanhado com interesse a cena da música mais extrema feita no Brasil, e o evento Kool Metal Fest proporcionou a oportunidade ideal para conferir num mesmo show cinco nomes em destaque da cena nacional em 2019. O Carioca Club foi o local escolhido para acolher à um bom público, que desde o início da tarde de domingo populou o espaço de forma pacífica e paciente, tendo em conta as constantes invasões de palco, os habituais mosh e rodas-punk, e o considerável atraso da atração principal da noite: os mexicanos Brujeria!

Uma criança anuncia a banda Brujeria
O trio feminino Eskröta foi o primeiro a subir ao palco, e destilou seu thrash crossover de forma simples e eficiente. Tocaram músicas do EP Éticamente Questionável e 2 novos temas do split Ultriz, assim como AIDS, Pop, Repressão do Ratos de Porão, uma de suas grandes influências. As letras em português ajudam a passar a mensagem antifascista e de empoderamento feminino, mesmo que invariavelmente vociferadas pela guitarrista Yasmin. Eu havia assistido seu show no Warriors Festival, há cerca de ano e meio atrás, ocasião que marcou a saída temporária da baterista Miriam Momesso, sucedida pela entrada de Jhon França na tour pelo nordeste durante a sua ausência. Em forma de agradecimento, as moças aproveitaram a ocasião e chamaram o baterista para tocar a faixa título do EP de estreia. Já no derradeiro tema do show, o palco foi invadido por mais de uma dezena de mulheres do público, que juntas entoaram as 3 frases do curtíssimo Mulheres: "Ninguém me representa / Não sou obrigada / Machista não passa". Apesar de estarem à frente de um grande público, o trio oriundo do interior de São Paulo não se intimidou, mandou bem o seu recado político, e saiu ovacionado.

Yasmin, voz/guitarra do Eskröta

O Cemitério, projeto liderado pelo vocalista e multi-instrumentista Hugo Golon, foi o próximo a subir ao palco para destilar seu death/thrash old school. Há cerca de 5 anos que o projeto existe, recuperando uma sonoridade retrô pautada por letras em português que narram estórias de filmes horror. Ao vivo o Cemitério conta com músicos competentes, enquanto Hugo se concentra apenas na voz. Um registro que em momentos me lembrou o saudoso Carlos 'Vândalo' (Dorsal Atlântica) do tempo do Antes do Fim. O quarteto destilou músicas de seu álbum homônimo de 2014, assim como de seu mais recente EP Oãxiac Odèz dedicado a obra do cineasta Zé do Caixão. Para o fim ficou um dos temas mais entoados pelo público presente, o 'clássico' Pague para Entrar, Reze para Sair. O Cemitério é um grupo que poderia ser beneficiado pela utilização de recursos audiovisuais ou até mesmo props de palco, no entanto foi o único que sequer utilizou o painel de fundo. No geral foi um show bem simples, um pouco monótono, mas super eficiente na entrega.

Hugo Golon, voz do Cemitério
Na sequência veio o Surra, banda crossover hardcore/thrash de Santos, que ganhou minha admiração desde que os vi no Warriors Festival em 2018, e posteriormente no evento 'Hardcore Contra o Fascismo'. Sim, eles também carregam a bandeira político/social que é destilada em temas curtos cantados em português, através de letras impregnadas de insatisfação, repúdio e revolta. Em palco são apenas 3 jovens músicos, mas sua música fica 'de gente grande' num palco como o do Carioca Club. O público entrou logo na onda das rodas de pogo, e populou o palco para o constante mosh. Tocaram músicas de seus 2 álbuns, com atenção especial a Escorrendo pelo Ralo lançado este ano, e cujo vinil fiz questão de garantir no final da noite. Pode-se dizer que sua discografia é bem extensa, levando-se em consideração os singles, ep's, splits, e bootlegs, e algum desse material foi lembrado, como por exemplo Parabéns aos Envolvidos do EP Ainda Somos Culpados, no qual o vocalista/guitarrista Leeo Mesquita lança ao público uma cadeira inflável em forma de pato amarelo, que a galera não poupou de surrar até furar! Sem dúvida um dos momentos mais divertidos da noite, onde os presentes puderam extravasar sua insatisfação política, inflamados pelo som corrosivo e pelas críticas sociais.

Leeo Mesquita, vocalista/guitarrista do Surra.
Nervosa, o trio feminino mais badalado do momento no Brasil, foi recebido de forma calorosa pelo público presente. Eu já havia assistido a um show delas no Espaço 555, por altura do lançamento de seu mais recente trabalho de estúdio Downfall of Mankind, mas estava curioso em conferir a evolução do grupo, afinal de lá pra cá elas rodaram bastante, inclusive participando do megafestival Rock in Rio. Ao todo foram mais de 60 shows em duas tours pela Europa, e uma dúzia de shows pelo México e América Central. Em São Paulo o grupo havia se apresentado recentemente no Sesc Pompéia, mesmo assim a expectativa era grande, e as meninas corresponderam a altura com seu death/thrash endemoniado. Fernanda Lira e Prika Amaral dividiram as atenções em palco, enquanto a discreta Luana disparava seus blast beats por atrás de seu kit. Fernanda me pareceu um pouco mais contida desta vez, porém não deixou de aludir à importância da mulher na sociedade, de alertar sobre a perigosa relação entre o estado e religião (Guerra Santa), e da crescente fascista no Brasil (Never Forget, Never Repeat), e de forma geral manteve um alto nível na entrega e execução. Tocaram músicas de todos os álbuns, inclusive o tema Masked Betrayer do EP Time of Death, no entanto a escolhida para o encerramento do show foi Into the Moshpit de seu debut, e que mais uma vez colocou os headbangers em polvorosa.

Fernanda Lira, baixista e vocalista do Nervosa
O último grupo nacional a subir ao palco do Kool Metal Fest foi o Krisiun, trio gaúcho de brutal death metal, e possívelmente o maior ícone da música extrema tupiniquim no novo milênio. Ativos desde 1990, o grupo formado pelos irmãos Kolesne já gravou 11 álbuns de estúdio em longa duração, sendo o último lançado em setembro do ano passado. Só este ano já excursionaram pela Austrália, Europa e América do Norte, e tocaram em Países fora do eixo como Emirados Árabes e Filipinas. Recentemente fizeram algumas datas no Chile e regressaram mais uma vez ao Brasil para destilar temas que percorreram álbuns mais antigos como Black Force Domain, Apocalyptic Revelation, Conquerors of Armageddon, e claro, álbuns mais recentes como Southern Storm, The Great Execution, e a novidade Scourge of the Enthroned. Com direito a palco caracterizado, o Krisiun demonstrou extrema capacidade técnica e coesão, numa brutalidade sônica capaz de hipnotizar o mais desprevenido. Este foi meu primeiro testemunho ao vivo, e posso afirmar que fiquei impressionado com a intransponível parede sonora, assim como com a humildade na comunicação com o público. Confesso que seus álbuns de estúdio sempre me passaram batido, em meio às centenas de lançamentos que transbordam no cenário da música extrema mundial, mas a banda ganhou a minha atenção ao saber que alguns dos novos temas foram baseados na "mitologia" suméria dos Anunnakis. Um tópico que foge ao padrão 'realidade' nua e crua de seu death metal, mas que na minha opinião casa perfeitamente com seu DNA alterado, que foge aos padrões deste mundo.

Os irmãos Kolesne do Krisiun
Após 5 intensos concertos, e cerca de 5 horas no recinto, tudo o que alguém cansado e com fome queria era um atraso na programação, mas infelizmente foi o que aconteceu até o Brujeria ser anunciado por uma criança (o primeiro tema tocado foi Cuiden a los niños), e com o baixista Hongo (Shane Embury do Napalm Death, Lock Up, entre outros) em palco, de costas para o público, afinando seu instrumento. Não sei se a banda teve culpa no atraso, mas achei abusivo cerca de 45 minutos a espera para além do horário inicialmente programado. Como se não bastaste, logo nos primeiros temas o público começou a subir em palco para o mosh, algo que já havia acontecido nas apresentações anteriores, porém agora em maior quantidade e intensidade. Para piorar as coisas, as pessoas não pareciam querer deixar o palco, o que prejudicou quem estava lá trabalhando (fotógrafos) e principalmente quem queria assistir ao show do controverso grupo mexicano. Ao meu ver o Brujeria foi permissivo com as invasões, o que contribuiu para que muitos abandonassem o recinto antes do final. Quem ficou por lá assistiu o quinteto destilar seus principais temas retirados de álbums como Matando Gúeros, Raza Odiada, Brujerizmo e Pocho Aztlan. Ao todo foram uns 20 temas, incluindo também 2 novos que integram Amaricon Czar, a novidade deste ano lançada em single de 7 polegadas, e Marijuana do EP de mesmo nome que colocou um ponto final em sua passagem por São Paulo, integrada na tour de 9 datas pelo Brasil.

Brujeria

Kool Metal Fest 2019

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